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Candidíase Oral

A candidíase oral é uma das infecções oportunistas mais frequentes da cavidade bucal, sendo causada predominantemente por fungos do gênero Candida, especialmente Candida albicans. Embora esse microrganismo faça parte da microbiota oral de indivíduos saudáveis, alterações locais e sistêmicas podem favorecer sua proliferação e transformação de um estado comensal para um comportamento patogênico. Essa mudança está associada ao desenvolvimento de diferentes formas clínicas de candidíase e ao seu possível papel como cofator na carcinogênese oral.
Estima-se que Candida albicans seja responsável pela maior parte dos casos de candidíase oral, embora espécies não-albicans tenham aumentado nas últimas décadas e apresentem maior resistência aos antifúngicos convencionais. Entre os principais fatores predisponentes destacam-se idade avançada, uso de próteses removíveis, xerostomia, higiene bucal deficiente, diabetes mellitus, uso prolongado de antibióticos ou corticosteroides, tabagismo, alcoolismo e imunossupressão.
O diagnóstico da candidíase oral é realizado, na maioria dos casos, com base na avaliação clínica das lesões e dos sintomas apresentados pelo paciente. Quando o aspecto clínico é sugestivo, é comum iniciar tratamento antifúngico empírico, e a regressão das lesões após a terapia confirma o diagnóstico.
Quando há necessidade de confirmação laboratorial ou dúvida diagnóstica, podem ser utilizados métodos complementares:
  • Citologia esfoliativa: consiste na raspagem superficial da lesão, especialmente útil na candidíase pseudomembranosa, seguida de coloração pelo método PAS (ácido periódico de Schiff), que evidencia as hifas de Candida em coloração magenta. Como alternativa rápida, pode-se utilizar hidróxido de potássio (KOH) a 10%, que facilita a visualização dos fungos ao microscópio.
  • Biópsia: indicada principalmente quando o diagnóstico é incerto ou há suspeita de outras lesões, como leucoplasia ou malignidade. O tecido é corado pelo método PAS, permitindo identificar as hifas fúngicas localizadas, geralmente, na camada superficial do epitélio.
  • Cultura microbiológica: realizada em ágar Sabouraud para confirmar a presença de Candida. Embora seja útil para detectar o microrganismo, não diferencia colonização de infecção ativa, pois a levedura pode fazer parte da microbiota oral normal.
  • Quantificação de unidades formadoras de colônia (UFC): a contagem de Candida na saliva pode auxiliar na avaliação da carga fúngica. Entretanto, não existe um valor de corte capaz de distinguir com segurança colonização de doença. Assim, o diagnóstico definitivo depende sempre da associação entre os achados clínicos e os resultados laboratoriais.
Nos casos mais leves de candidíase oral, os antifúngicos tópicos constituem a primeira escolha terapêutica. A nistatina, na concentração de 100.000 UI/mL, é administrada na forma de bochechos de 10 mL, 3 a 4 vezes ao dia, por no mínimo 14 dias. Outra opção é o miconazol gel oral, geralmente utilizado para o tratamento da queilite angular ou da candidíase oral localizada no palato, podendo-se utilizar a prótese total como uma moldeira para o miconazol. Esse antifúngico deve ser aplicado 3 a 4 vezes ao dia, por no mínimo 14 dias. Já nos casos mais severos de candidíase oral, especialmente em pacientes imunossuprimidos, recomenda-se o uso de antifúngicos sistêmicos. O fluconazol pode ser administrado na dose de 150 mg, por via oral, uma vez por semana, por até 4 semanas seguidas, devendo-se atentar para as diversas interações medicamentosas. Outra opção de antifúngico via oral, apesar de não ser a primeira escolha, é o itraconazol, utilizado na dose de 200 mg por dia, durante 4 semanas.

Referências

1. Ayuningtyas NF, Mahdani FY, Pasaribu TAS, Chalim M, Ayna VKP, Santosh ABR, et al. Role of Candida albicans in oral carcinogenesis. Pathophysiology. 2022;29(4):650-662.
2. Tkaczyk M, Kuśka-Kielbratowska A, Fiegler-Rudol J, Niemczyk W, Mertas A, Skaba D, et al. The prevalence and drug susceptibility of Candida species and an analysis of risk factors for oral candidiasis—A retrospective study. Antibiotics (Basel). 2025;14(9):876.
3. Quindós G, Gil-Alonso S, Marcos-Arias C, Sevillano E, Mateo E, Jauregizar N, et al. Therapeutic tools for oral candidiasis: Current and new antifungal drugs. Med Oral Patol Oral Cir Bucal. 2019;24(2):e172-e180.

Prancha de Figuras

Figura 1. Queilite angular. Essa condição pode estar associada à diminuição da dimensão vertical de oclusão (DVO), ao diabetes mellitus descompensado e à anemia.
Figura 2. Candidíase eritematosa em palato duro (área chapeável). Essa forma clínica está frequentemente associada ao uso de prótese total e caracteriza-se por eritema difuso da mucosa, podendo estar acompanhada de ardência e/ou sintomatologia dolorosa.
Figura 3. Candidíase pseudomembranosa em limite de palato duro e palato mole. Essa forma clínica caracteriza-se pela presença de placas esbranquiçadas removíveis à raspagem, deixando uma superfície eritematosa subjacente. Neste caso, a lesão está associada ao uso crônico de corticosteroide tópico inalatório.
Figura 4. Glossite romboidal mediana em região central do dorso da língua. Caracteriza-se pela presença de uma área despapilada, bem delimitada, localizada anteriormente às papilas circunvaladas. Embora seja geralmente assintomática, alguns pacientes podem relatar ardência ou sintomatologia dolorosa.
Figura 5. Candidíase leucoplásica (hiperplásica crônica) em comissura bucal. Caracteriza-se pela presença de placa esbranquiçada não removível à raspagem. Após a terapia antifúngica, recomenda-se a realização de biópsia da lesão caso não ocorra regressão clínica completa, devido ao potencial de associação com displasia epitelial.
Figura 6. Esfregaço citológico da mucosa oral evidenciando numerosas leveduras compatíveis com Candida spp. (seta preta), associadas a alterações reativas do epitélio, incluindo aumento da relação núcleo/citoplasma e presença de halo perinuclear (seta branca), achados frequentemente relacionados ao processo inflamatório induzido pela infecção fúngica. (Coloração de Papanicolaou, aumento original ×400.)

Banco de Imagens

Dr. Ricardo Losekann Paiva, Mestre em Patologia Bucal. Possui mais de 15 anos de experiência na área de estomatologia clínica e tem como principais áreas de atuação o carcinoma espinocelular, lesões bucais, citopatologia bucal e saúde pública. Graduado pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, com mestrado e doutorado pela mesma universidade. Especialista em Cirurgia e Traumatologia Bucomaxilofacial pela FAMESP. Diversas publicações em revistas de destaque na área, incluindo Acta Cytologica, Oral Surgery Oral Medicine Oral Pathology Oral Radiology, e Analytical and Quantitative Cytology and Histology. Seus artigos abrangem tópicos como screening citológico, carcinoma de células escamosas, cistos, álcool e câncer bucal. O Dr. Ricardo Losekann Paiva é também autor de capítulos do livro "Coleção Manuais da Odontologia 6 Estomatologia". Sua vasta experiência e suas contribuições para a literatura acadêmica o tornam uma autoridade na área de Patologia Bucal.